quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Conto - Ana Lúcia Polessi

A MORTE DO POETA

No dia em que ele perdeu a fé os relógios até pararam; tanto os digitais quanto os analógicos se negaram a continuar marcando o tempo que faltava para o fim.

Ele pulou do último andar do prédio, completamente nu.

Sua foto já estampava a primeira página do jornal enquanto se encontrava a caminho do chão, passando pela janela do sétimo andar. Matéria de três páginas, em cores, contava sua vida sofrida - embora dois amigos íntimos jurassem que aquilo tudo era mentira.

Gente feliz não vende revista.

Ele era ativista!

Ele era egoísta!

Ele era louco!

Não acreditava mais em Deus, nem nas pessoas. Dizia que o mundo era um grande cenário cheio de personagens condenados a morrer, atuando sem ensaio - cada um às voltas com um papel pequeno e, não raro, demasiado fraco.

No dia em que ele perdeu a fé os mares secaram; tanto os de verdade quanto os cibernéticos se negaram a continuar permitindo a navegação durante o tempo que faltava para o fim. E faltava tão pouco.

Lá embaixo, alguém gritou. Assustado, o poeta reagiu, estendeu os braços, voou, partiu. Conviveu durante uma semana com os pássaros, absorvendo sua cultura e sua filosofia. Adotou uma nova ideologia. Encheu-se tanto de felicidade que voltou a crer. Em Deus, nas pessoas. De repente, acreditou até na gravidade. Ah! Calamidade. Destino. Ele finalmente caiu.

Cumpriu-se a profecia, afinal: morreu o poeta e acabou-se o mundo.

ANA LÚCIA POLESSI

Movimento UNIÃO CULTURAL
Itatiba-SP-Brasil

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